Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” – Paulo Freire

O Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) foi criado em 1972, nos anos duríssimos da Ditadura Militar, quando ocorriam inúmeros agravos aos Direitos Humanos no país, com perseguições a estudantes, às lideranças populares, sindicais, aos intelectuais e aos artistas. Com os jovens democráticos de então, o Centro desde o início foi um espaço de resistência à Ditadura Militar, com um engajamento na luta pela anistia e pelos Direitos Humanos para presos e ex-presos políticos e exilados, visando a restauração da vida democrática no país.

Paulo Freire então encontrava-se exilado, desde 1964, como muitos outros ativistas, artistas e intelectuais brasileiros. Mas sua produção intelectual e as várias experiências – no Chile, em Guiné Bissau e em diversas universidades mundo afora – iam confirmando a importância de suas ideias e obras. O livro Pedagogia do Oprimido (1968) é considerado um dos mais importantes livros do Século XX.

O CCLF e os Movimentos Sociais

Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” – Paulo Freire

Paulo Freire volta ao Brasil em 1980 e a partir dos anos 80, com o processo de redemocratização da sociedade e do Estado no país, o CCLF – já organização conhecida em Recife e Olinda – passa a se engajar com mais afinco nas diversas lutas, acompanhando o surgimento de novos sujeitos de direitos, com a ampliação dos Direitos Humanos, junto e em diálogo com os movimentos sociais que se insurgiam – a exemplo da parceria com o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP) na defesa dos DH, pelo direito à moradia e na luta pela posse da terra nas periferias das cidades. O Centro estabelece parcerias com as organizações ligadas ao Movimento de Mulheres, ao Movimento Negro, ao Movimento por Direitos Sexuais, na luta contra a AIDs, no Movimento de Crianças e Adolescentes, nos Movimentos Culturais, entre outros.

E o Centro vai se consolidando como um Centro de cultura, no envolvimento com movimentos, projetos culturais e com artistas

A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” – Paulo Freire

A busca pela boniteza e pela alegria também acontecia no CCLF! O Cineclube Leila Diniz, no início dos anos 80, oferecia à comunidade olindense a mostra da produção cinematográfica, crítica, alternativa de Pernambuco, do Brasil e do mundo, com cine-debates. Dos grupos de teatro, dos eventos musicais e outros saraus literários, até os dias atuais o CCLF tem sido um espaço livre para fins culturais na cidade de Olinda e arredores.

Daí para TV Viva foi um pulo! TV Viva, a sua imagem, não era só uma produtora de vídeo popular, criava uma linguagem audiovisual na qual os personagens eram o povo das feiras, das comunidades populares, dos movimentos sociais e sindicais, do campo. Eram as mulheres, os homossexuais, as crianças e jovens, com suas falas, modos, estética, na telinha ou no telão das exibições de rua, trazendo suas realidades, seus desejos e expectativas de um país que caminhava pela redemocratização. E a comunicação era um território que também precisava ser democratizada, se abrindo para além das mesmas e grandes empresas que mantinham o poder das elites desde sempre.

O CCLF afirmava a Comunicação como um Direito Humano junto ao seu trabalho com comunicação popular e os seus comunicadores.

A Constituinte de 1988 e a Constituição Cidadã

Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.” – Paulo Freire

Com a mobilização durante a Constituinte, junto com os movimentos sociais, o Centro de Cultura Luiz Freire fortaleceu alguns dos princípios e focos que se mantém até o presente: crianças e adolescentes como cidadãos do presente e do futuro e o Estatuto dos Direitos de Crianças e Adolescentes – ECA; os Direitos Humanos como referência no trabalho com a Educação, a Comunicação e Diversidade Étnico-Racial, entre outros.

Mas a luta pelos DH precisava ir além das leis. Precisava da democracia, da participação social e da materialização do direito em políticas públicas. Daí se consolida uma estratégia dos projetos: incidência nas políticas públicas para consolidar Direitos Humanos para todas e todos.

De lá pra cá: Educação como Direito Humano

Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” – Paulo Freire

A contribuição das ideias de Paulo Freire e da educação popular nas intervenções realizadas pelo CCLF ultrapassam o trabalho com educadores. Desde o início, essa atuação é também com os jovens, comunicadores populares, conselheiros, militantes e lideranças comunitárias, sindicais, sociais e políticas em geral.

Do apoio a projetos de educação popular à formação de educadores populares, até os projetos educacionais para crianças e jovens, passando pelo apoio do Centro à Associação de Educadoras das Escolas Comunitárias- AECC. Tudo isso é reflexo das palavras de Paulo Freire nas atividades “cclfianas”. Na integração da educação, cultura e literatura, dos vários projetos de leitura e letramento, surgiram as Oficinas de Leitura, mesclando arte e literatura. Da formação de educadores-leitores, das Quartas Literárias, saraus de arte, literatura e poesia abertos ao público no quintal do CCLF… Sem contar do apoio e formação às bibliotecas comunitárias, compreendendo que, numa sociedade onde a tecnologia convive perversamente, com tanto analfabetismo, ler pode ser revolucionário e a leitura é um direito!

No campo da Educação Infantil, no que tange o direito das crianças, direito das mulheres e das famílias, surgem projetos como o Brotar. Da formação de professoras de creches e pré-escolas, nasce o Fórum de Educação Infantil em PE – FEIPE.

O direito dos povos indígenas a uma educação escolar especifica, intercultural e diferenciada para cada povo foi um dos projetos para fortalecer identidades e promover resistências. Do trabalho com os professores indígenas sai a Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco – COPIPE. Dos povos, suas histórias e livros, das políticas, brota o Conselho de Educação Escolar Indígena de PE. A Educação e a diversidade étnico-racial sempre esteve em pauta na história do CCLF, bebendo do que Paulo Freire trazia da educação como prática de liberdade.

Lavar as mãos do conflito entre os poderosos e os impotentes significa ficar do lado dos poderosos, não ser neutro. O educador tem o dever de não ser neutro.” – Paulo Freire

A Incidência e o controle social nas políticas educacionais é um caminho na luta pelo direito à educação de qualidade e a participação em redes, a exemplo das parcerias com a Campanha Nacional e o Comitê Pernambuco pelo Direito à Educação, colocou o CCLF no caminho certo na defesa de uma educação de digna para todas e todos.

Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.” – Paulo Freire

Paulo Freire fez 100 anos, o CCLF seus 49 anos

Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!” – Paulo Freire

As memórias das organizações de Direitos Humanos hoje mostram que os DH estão sempre em construção, não linear, sempre em movimento. Foi preciso movimento para construí-los, para garanti-los e continua sendo preciso movimento para mantê-los e radicalizá-los. Os negros, indígenas, jovens periféricos, LGBTQIA+, as mulheres, os assentados da reforma agrária, entre outros, sabem bem o que é correr risco, que a luta é sempre!

Por isso o CCLF está vivo, por acreditarmos que fazemos algo importante e necessário, e pela atualidade de nosso objetivo:

Contribuir para a radicalização da democracia na sociedade, promovendo a expansão, qualificação e consolidação da participação cidadã e da prática dos Direitos Humanos, vivenciados como um processo educativo e cultural” (CCLF, 2018)

Liz Ramos, Olinda, outubro de 2021