Escrito por Cida Fernandez, coordenadora do Programa Direito Humano à Leitura do CCLF.

 

Nunca foi tão importante fortalecer vínculos comunitários, ler literatura e promover a arte e a cultura como alimento da alma e fortalecimento do corpo para a resistência.  Por isso, as bibliotecas comunitárias são hoje equipamentos estratégicos que contribuem não só com a defesa, mas com a promoção de direitos humanos em comunidades onde o Estado passa ao largo.

Desde 2016, momento em que todos os nossos direitos passaram a ser brutalmente retirados, em que o sofrimento, a opressão e a fome foram impostas por um duro golpe contra a democracia, se alastrando, atingindo especialmente as pessoas mais pobres e em sua maioria negra, também foi institucionalizada oficialmente a mentira. A mentira oficialmente escancarada para sustentar afirmações distópicas de inimigos inexistentes.

Quem são os comunistas? Quem vai fazer quem virar jacaré, gay ou mulher? Onde chegaria uma mamadeira erótica que seria distribuída numa creche e só viraria um escândalo se denunciado por whatsapp?  De onde saem essas ideias completamente desconectadas de uma realidade tangente? Como desconstruir essa loucura? Como descortinar as máquinas que constroem esses devaneios temperados em ódio, que seguem se espraiando e prometem se multiplicar nos momentos de disputas eleitorais pelas multidões?

As bibliotecas comunitárias nos acenam como oásis num deserto de esperança. Oásis porque praticam o esperançar e não o esperar.

Surgiram de movimentos das próprias comunidades, apoiadas por agentes e parceiros externos ou não, que criaram esses espaços onde as pessoas podem se sentir acolhidas e em comunhão, em coletivo, em colaboração. Espaços que, em boa parte surgiram como equipamentos para apoiar o desenvolvimento escolar com pesquisas e também de acesso a livros literários para a formação leitora, dada a falta de bibliotecas públicas e/ou escolares em seus territórios.

Com o tempo, o acesso à literatura como arte, enraizamento comunitário e pertencimento se fortalece. Moradoras/es e as equipes das bibliotecas começam a enxergar nesse equipamento um potencial para além da defesa do direito à leitura, mas de defesa de direitos humanos e de empoderamento da comunidade, ressignificando o equipamento e a noção de direito.

Em parte, essa ressignificação se dá pelo potencial da literatura em nossa humanidade e, em parte, pelos fortes vínculos que unem os moradores e as moradoras, que contribuem para a superação do fracasso escolar, por exemplo, e que também podem contribuir para resistir ao desmonte do Estado de direito.

No contexto da pandemia, evidenciou-se o quanto as necessidades aumentaram e como uma luta que começou para oferecer acesso ao livro e pressionar o poder público a investir recursos em bibliotecas e ações de promoção da leitura, agora inundada por outras necessidades, se transmutava e corria atrás de matar a fome também do corpo. A necessidade de cuidados também da nossa casa. Nesse momento, todes entenderam que só literatura não bastava, mas que ela seguia sendo essencial para nos garantir sanidade mental frente a tantas ameaças e opressões!

Era necessário, e muito, alimentação, material de higiene e limpeza para proteger as equipes e os/as moradores/as das comunidades e informações. Informações para contribuir para que as pessoas pudessem fazer outras leituras da realidade, para além da tela da TV e/ou do zap da família.

Na pandemia, as bibliotecas tiveram que fechar suas portas, mas não se fecharam às suas responsabilidades e à sua causa maior. Mais do que um equipamento para acesso ao livro e à leitura, se efetiva também como um equipamento de proteção e defesa de direitos humanos!

As bibliotecas comunitárias da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) – que hoje ultrapassam a casa das 120 organizadas em 11 redes locais, distribuídas nas periferias de 04 regiões do país – converteram-se, transformaram-se, ressignificaram-se e surpreenderam com sua capacidade de respostas. Passaram a produzir leitura, conversas, lives oferecendo literatura acessível pelo WhatsApp e plataformas virtuais. Mas, não bastava, o fosso da desigualdade jogava para o lado de fora da festa grande parte do público atendido nas comunidades por não terem pacote de dados suficiente para acessar as atividades remotas e/ou muitas vezes por sequer terem um smartphone adequado para isso. No entanto, não desistiram! Algumas bibliotecas aproveitaram da oportunidade das cestas básicas para suprir a fome da carne e incluíram – à alimentação e produtos de higiene e limpeza – pelo menos um livro literário em cada kit. Outras, articularam jovens moradores/as nas comunidades ou seus próprios mediadores/as para rodar pequenos acervos literários em bolsas, malas de leitura, bicicletas e levarem de casa em casa a arte literária para acalentar tanto sofrimento.

Só em Recife, a Releitura – Rede de Bibliotecas Comunitárias do Recife, Olinda e Jaboatão, composta por 10 bibliotecas, conseguiu mobilizar e distribuir desde o início da pandemia 5.272 cestas básicas, 795 cartões alimentação, 3.221 kits de higiene e limpeza, atendendo a 3.434 famílias[1]. Parte das cestas e kits com um brinde literário dentro.

Por outro lado, para cuidar das equipes e das pessoas das comunidades, a comissão de bibliotecárias da RNBC realizou um estudo e publicou um protocolo para o funcionamento das bibliotecas no período da pandemia e quando do retorno às atividades, o que deu maior segurança às bases locais.

Esses espaços também promoveram e promovem sistemática e amplamente debates e eventos temáticos, tais como: o Seminário Nacional de Incidência em Políticas Públicas, realizado entre os dias 24 e 26 de agosto, que trouxe o tema “O Brasil das Minorias” com o propósito de discutir o racismo, o  machismo, a homofobia e todas as formas de reprodução e manutenção das desigualdades; a aula pública “Uma Conversa Antirracista”, realizada pela Rede de BC de Beabah (RS), numa praça central da cidade; entre tantas outras atividades político informativas necessárias para que a população compreenda o que de fato acontece e não se cale, ao contrário,  junte-se  à essa grande rede e amplie sua voz.

Por tudo isso, constata-se que esses equipamentos no seu processo de desenvolvimento realizam, cada dia mais, ações voltadas ao desenvolvimento comunitário, a partir da perspectiva dos direitos humanos – universal, indivisível e interdependente, tendo na sua centralidade uma forte aliada: a literatura de ficção e a poesia como direitos humanos. E, justamente por isso, mesmo promovendo ações assistenciais necessárias, as Bibliotecas Comunitárias transcendem ao assistencialismo, promovendo o protagonismo dos sujeitos no diálogo com suas realidades, ao redor de onde estão sediadas.

A literatura tem a potência de nos suspender de uma situação de constrangimento e a motivar nosso desencarceramento dos nossos afetos, pensamentos e crenças, para exercermos nossa liberdade e, enquanto sujeites politiques, exercermos a resiliência e a resistência às mentiras, ao fascismo e a todas as formas de opressão.

[1] https://www.releitura.org.br/2020/11/desde-o-inicio-da-pandemia-as.html#more