Notícias

Cinema por elas: lugar da mulher no cinema é onde ela quiser?

por Débora Britto

12895475_10204987031870419_1847075170_n

Roda de diálogo Cinema por elas. Foto: Débora Britto/CCLF

A representação da mulher na tela grande do cinema é assunto extensamente debatido por movimentos feministas, setores da academia e no meio do audiovisual. Nesse cenário, cada vez mais tem se pensado, debatido e refletido sobre os papéis das mulheres por trás das câmeras.

Pensando nisso e como mais uma iniciativa para reunir mulheres envolvidas na cadeia produtiva do audiovisual pernambucano, a Federação Pernambucana de Cineclubes (Fepec) iniciou o Circuito Cineclubista de Realizadoras de Pernambuco com o debate Cinema por elas.

A roda de diálogo aconteceu na última terça-feira (22), no Centro de Cultura Luiz Freire, e reuniu cerca de 20 pessoas, a maioria mulheres, para conhecer e partilhar das experiências de realizadoras pernambucanas que estão pensando e atuando na valorização na mulher no cinema.

Como convidadas, participaram a realizadora e produtora do Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) Maria Cardozo, a atriz Mauricéia Conceição, a realizadora e coordenadora da Massangana Multímídia Chyntia Falcão, a vice-presidenta da ABD/Apeci Juliana Lima, Natália Lopes, do coletivo de mulheres negras Cabelaço e mestranda com pesquisa sobre cinema e gênero “Que porra é cinema de mulher? A mostra Cinema de Mulher e o desvelar do machismo no audiovisual pernambucano”.

Entre as personagens interpretadas por atrizes negras no cinema, a efervescência do debate sobre “cinema de mulher” e a repercussão no meio predominantemente masculino do cinema pernambucano e a importância de ter mais espaços para pensar a temática, algumas perguntas ficaram em aberto para serem respondidas coletivamente: Quem é a mulher no cinema? Que papéis e quais os lugares de poder as mulheres ocupam? As mulheres no cinema estão recebendo as mesmas oportunidades que os homens?

Mulheres negras no cinema

Na mesa composta por cinco mulheres das quais quatro são negras, o debate urgente sobre a inserção de negros e, especialmente, negras foi colocado na roda e discutido amplamente. Para se ter uma ideia, pesquisa realizada durante dez anos (2002 a 2012) pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) revelou que nenhum dos mais de 218 filmes nacionais de maior bilheteria teve uma mulher negra na direção ou como roteirista.

12674673_10204987031790417_482519176_n

Roda de diálogo Cinema por elas. Foto: Débora Britto/CCLF

Os números mostram de forma crua como as mulheres negras estão em número radicalmente menor que mulheres brancas e homens no cinema brasileiro. Seja em frente ou atrás das câmeras. Segundo a pesquisa intitulada “A Cara do Cinema Nacional”, e capitaneada pelo  Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), mulheres ocupam 14% dos cargos de direção e 26% dos postos de roteiristas entre os filmes mais vistos. Ainda de acordo com o estudo, atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal dos filmes nacionais mais assistidos.

Para Juliana Lima, que compartilhou os números da pesquisa, informações como essa expõem a necessidade de se pensar uma política de cotas em fundos de financiamento, a exemplo do Funcultura. Em 2015, o Grupo de Trabalho da ABD começou a discutir e formular ações para criação de uma política de cotas para realizadoras/es negras e negros no Funcultura. Juliana comemorou o fato de o último edital (9º Funcultura) ter incluído a possibilidade de autodeclaração de negras e negros e a destinação de ao menos um projeto em cada categoria para proponentes negras e negros.

Essa ação ainda não é uma política de inclusão, ela destaca, mas o começo do processo. “Nossa intenção era conseguir 20% de recursos do total do edital para negros e negras na cadeira produtiva do audiovisual para ser uma ação afirmativa mesmo. Não é porque ações como cotas são construídas com base na representação do negro na sociedade, que não foi o caso”, explica.

A partir da autodeclaração, pela primeira vez será possível mapear a quantidade de produtoras/res culturais negras e negros que tentam acessar o Funcultura. “Desde que foi criado, não existia levantamento de quem acessava o Funcultura. Por isso a gente tá fazendo um levantamento. A gente quer saber o perfil de quem acessa. a gente vai ter uma base para criar uma política de incentivo à formação de diretoras/res, roteiristas negras negros”, diz Juliana.

O GT Representação, Cotas e Descentralização do Audiovisual em Pernambuco é uma estimulado pela ABD que tem estado em diálogo com o Conselho Consultivo do Audiovisual de Pernambuco.

Circuito Cineclubista de Realizadoras de Pernambuco –  Cineclubes filiados à Fepec terão acesso a todo o acervo de filmes de realizadoras pernambucanas. No site da Fepec está disponível link para o formulário de inscrição de cineclubes no circuito, que está previsto para acontecer até o mês de junho.

A roda de diálogo foi organizada pela Federação Pernambucana de Cineclubes, Coletivo Quebrando Vidraças e Centro de Cultura Luiz Freire.

Autores(as)