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Em dia de luta, mulheres questionam papel da mídia nas discussões sobre direitos

12790878_1584975305159074_1555466374734692587_nApesar da apropriação da data pelo mercado, o Dia Internacional da Mulher continua tendo sua origem nas lutas operárias honrada pela mobilização contra as inúmeras formas de repressão sofridas pela mulher. Na última terça-feira, de punhos erguidos e sem flores, quase cinco mil mulheres de várias naturalidades, idades, cores e classes sociais se juntaram ao ato unificado do dia 8 de março provido no Recife, “Pela vida das mulheres”, que teve início às 15h, com a realização de atividades no Parque 13 de Maio, e depois seguiu em marcha até a praça do Derby. A manifestação reuniu cerca de 30 organizações, entre sindicatos, ONGs e coletivos feministas independentes, que realizaram rodas de diálogo sobre questões como aborto e saúde, racismo, direito à cidade e LGBTfobia. Mutirões também produziram cartazes, que dialogavam com as pautas levantadas pelos grupos nas áreas da saúde, trabalho, conjuntura política e de enfrentamento à violência contra a mulher. O coro de vozes exigia tanto a saída de Eduardo Cunha (PMDB) da presidência na Câmara dos Deputados quanto questionava o papel imposto à mulher pela sociedade patriarcal.

“Autonomia e liberdade sobre nossos corpos” – A legalização do aborto, que recentemente teve o debate intensificado com a epidemia do zika vírus e o aumento dos casos de microcefalia em recém-nascidos, foi um dos temas principais postos em discussão. “A grande mídia persiste em responsabilizar apenas a mulher pelo aborto. Há dois discursos principais correndo atualmente na imprensa. Um de que o aborto deve ser legalizado para os casos de microcefalia e outro de que esse procedimento é eugenia. Aqui, defendemos que o aborto deve ser legalizado e garantido pelo Estado de forma segura e gratuita para todos os casos, diferente do discurso que responsabiliza apenas a mulher, quando, na verdade, o Estado não oferece saúde pública nem infraestrutura de qualidade” diz Lara Buitrom, 24 anos, integrante do Coletivo Feminista Diadorim. A conjuntura política, também problematizada pelas manifestantes, desfavorece o debate a respeito do assunto, tendo em vista a onda conservadora que tomou o Congresso Nacional, com o projeto de lei 5069/13, criado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que dificulta o aborto legal em casos de estupro.

Não havendo qualquer tipo de legislação que proteja efetivamente a imagem da mulher dentro dos meios midiáticos, as empresas de comunicação prosseguem lucrando às custas da imagem hipersexualizada e estereotipada da mulher. A ilustradora Letícia Carvalho, 19 anos, integrante do Coletivo Faça Amor, Não Faça Chapinha, comentou sobre os padrões estéticos e a fetichização da mulher negra. “O padrão estético imposto é o padrão branco. O único modelo é a ‘Globeleza’, que só aparece no Carnaval servindo como um pedaço de carne que é jogado fora quando a festa termina. A mulher negra com traços finos é a que serve à cama e a cozinha. Já as que têm traços étnicos mais fortes são destinadas para o trabalho pesado. O papel da mídia nessa lógica é fundamenta, reafirmando esse padrão constantemente”, afirma.

A escassez de políticas públicas para as mulheres em todas as áreas – desde educação, saúde, trabalho e às relativas à violência – é uma realidade presente não apenas no estado de Pernambuco, mas em todo o país. Na próxima terça-feira, 15 de março, as organizações que estiveram presentes no ato entregarão uma carta ao governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), com denúncias e reivindicações por políticas públicas.