Carregando o nome de Alafin, que na língua iorubá é um título de nobreza e significa “Senhor/Rei do palácio”, seguido do nome Oyó, em reverência a capital do antigo reino de Iorubá na África, na região onde hoje fica a Nigéria; e em homenagem ao quarto Rei de Oyó, Xangô, este foi adotado como orixá patrono, há 33 anos a Associação Recreativa e Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó desfila pelas ruas de Olinda,  com suas cores fortes -o vermelho e o branco. O som envolvente e o dançante ritmo Ijexá (ketu), e que junto às letras de suas músicas, que abordam lutas, religiosidade e esperança do povo negro, constituem um dos maiores repertórios de afoxé do estado de Pernambuco. Toda essa herança cultural traduz-se na ginga do Balé Alafin Oyó. Antes das apresentações, o ritual do Xirê é realizado no pátio da Igreja do Guadalupe, todo sábado de Zé Pereira, de onde sai o cortejo, permanecendo até hoje no mesmo formato e local. Além disso, a entidade sempre participa de atividades sociais, principalmente de interesse da população negra.


Foto: Afoxé Alafin Oyó

Neste ano, apesar das dificuldades enfrentadas pela entidade, no dia 02 de março, no Largo do Guadalupe, em Olinda, acontecerá o cortejo oficial do Afoxé Alafin Oyó e a celebração dos 32 anos de fundação do Alafin Oyó. A concentração será a partir das 19h. De acordo com o Presidente da associação, Fabiano Santos, a falta de apoio dos órgãos públicos para inserir o Alafin na programação ainda é um dos grandes problemas enfrentados pela instituição. “As expectativas desse ano é de luta. É quase que impossível a gente tentar fazer algo em um processo de recessão, na possibilidade de uma ditadura, de uma negação geral de direitos, para além daquelas que já são feitas.”

Fabiano ainda afirma, com pesar, que para o grupo o carnaval deixou de ser prazeroso e passou a ser angustiante com essa relação de grade e participação para retroalimentação econômica dos fazeres da instituição no carnaval. “Mas estaremos na rua saudando Xangô, trazendo o resultado de acordo com nossas condições econômicas.”


Foto: Afoxé Alafin Oyó

HISTÓRIA

O Afoxé Alafin Oyó tem suas origens na ala de Xangô do Ilê de África, o primeiro afoxé pernambucano fundado em Olinda, Pernambuco, em 1980. Com o fim do Ilê de África, em 1982, a Ala de Xangô foi transferida para o recém criado Afoxé Ara Odé, tendo permanecido neste grupo até 1984, quando dissidentes militantes do movimento negro resolveram criar um novo cortejo. Oriundos de várias camadas sociais, residentes em diferentes cidades, praticantes e não praticantes do Candomblé, inclusive ateus, tinham em comum a ligação com o Movimento Negro. Ao invés de se apresentarem apenas no carnaval, eles queriam se apresentar durante o ano inteiro; e ao invés de ficarem ligados apenas a um terreiro, eles optaram por agregar diferentes terreiros. Surge então o Afoxé Alafin Oyó, em 1987, como um espaço aglutinador onde negros e negras de diferentes realidades se articulam na luta pela afirmação da identidade negra e contra o preconceito e a discriminação racial.

Os ensaios do grupo tiveram início em 1984 e a primeira apresentação no carnaval ocorreu, dois anos depois, em 1986, quando foi formalmente fundada a “Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó”. A intenção era nomear a sociedade civil sem fins lucrativos como “Entidade de Cultura Negra Alafin Oyó”, mas ainda limitada pelo preconceito racial e resquícios de censura do período da Ditadura Militar, isso não foi possível. Apesar da adoção do termo “recreativa”, seu estatuto evidencia sua natureza religiosa com o objetivo de “louvar através da música, dança, cânticos e ritual, a religião e a cultura afro-brasileira de raiz yorubá (nagô)”, bem como sua natureza política com os objetivos de “atuar como um instrumento de sensibilização política, cultural e ideológica, divulgando à comunidade em geral e à comunidade afro-brasileira, em particular, a importância de toda essa tradição que nos foi legada por nossos ancestrais africanos” e “promover atividades filantrópicas, educacionais e culturais”.



Foto: Afoxé Alafin Oyó

Lutando contra todas as mazelas sociais,como preconceito, racismo, desigualdade, entre outras; assim que passa o Carnaval, a associação realiza uma pausa de dois meses e iniciam-se as atividades como oficinas de percussão, dança e canto para pessoas de todas idades e gêneros, e também, com apoio de parcerias, cursos profissionais gratuitos, com o objetivo de ensinar e dá oportunidades para jovens e adultos do entorno. Ainda de acordo com o Presidente Fabiano Santos, o Alafin existe como uma contribuição grandiosa e transformadora para a comunidade. “Estamos dentro da comunidade do V8, trazendo essa ressignificação do que é ser de Candomblé, de matriz africana. Estar em um comunidade levando como instrumento de luta o Afoxé é significativo para o local. Para além disso, tem o trabalho que fazemos com a comunidade, que é integrar o valor e a cidadania, dos quais temos, mas que nos é negado diariamente.”

Informações da Associação Recreativa e Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó e do Fórum Social Mundial

Edição: Rosa Sampaio