Opinião

A tarifa do “busão” e o paradoxo de Paulo Câmara

por Renato Pereira Feitosa

Iniciado o ano, a política brasileira passa a uma nova fase com o empossamento daquelxs que se elegeram em 2014. Os jingles e os simpáticos programas dos guias eleitorais são passado. O que se apresenta agora é a política sem maquiagem e o aumento nas tarifas do transporte coletivo tem se mostrado como a iniciativa mais urgente nas capitais brasileiras. Cerca de nove delas inflaram as passagens de ônibus ou pretendem fazê-lo entre os meses de dezembro e janeiro. Em Pernambuco, as primeiras declarações do novo secretário das Cidades, André de Paula, foram de que “não há como fugir dos reajustes das passagens” ao prometer uma definição do assunto para os próximos dias.

Enquanto o Sindicato das Empresas Transportes de Passageiros de Pernambuco (Urbana-PE) pressiona o governo por um reajuste de 23%, movimentos sociais já demonstram disposição para tomar as ruas. É o caso da Frente Independente Popular de Pernambuco (FIP-PE), que, em nota oficial, relembrou as propostas apresentadas pelo governador Paulo Câmara enquanto ainda disputava os votos dxs pernambucanxs há poucos meses atrás. “Entre as ações de maior impacto para a população, Paulo prometeu não reajustar a passagem; a extinção das tarifas B e D; adoção do bilhete único no valor de R$ 2,15; uso do bilhete integrado, durante o período de 3h, onde o passageiro poderia com uma única passagem pegar qualquer ônibus sem a necessidade de ir a uma integração; e PASSE-LIVRE para os estudantes do estado!!!”, afirma o texto.

Ao passo que as melhorias no atendimento a usuárixs do transporte coletivo caminham em ritmo digno dos congestionamentos enfrentados pelas populações das grandes cidades, os reajustes das passagens parecem ser uma tradição seguida anualmente pelas gestões públicas. Em 2013, a resistência ao aumento das tarifas foi o carro-chefe das mobilizações que acabaram tomando as ruas no que ficou conhecido como as Jornadas de Junho. À época, outra tradição estatal, a repressão policial violenta às manifestações, acabou sendo respondida com protestos que agregaram milhões no país todo e provocaram o anúncio de medidas por parte da presidenta Dilma como respostas às reivindicações. O reajuste das tarifas foi tímido ou anulado. Em Pernambuco, o ex-governador Eduardo Campos determinou redução de R$ 0,10 nas passagens sem respeitar, porém, a proporcionalidade dos preços dos diversos anéis viários existentes na Região Metropolitana do Recife, a qual havia sido fielmente cumprida com o aumento concebido às empresas de transporte no início daquele ano. Já em 2014, os governos preferiram evitar a tal medida impopular para não engrossar os protestos nas cidades durante a Copa do Mundo e, claro, não perder valiosos votos no pleito eleitoral.

Agora, com o início dos novos mandatos, as empresas de transporte encontram terreno fértil para grandes reajustes apoiando-se no argumento da suposta defasagem experimentada nos últimos anos. As mesmas empresas que pouco ou nada apresentam quando a questão é a melhoria das condições enfrentadas cotidianamente por quem depende do transporte coletivo e, pior, demonstram ser o principal obstáculo na obtenção da dignidade pelxs usuárixs. A respeito disto, vale lembrar as denúncias sobre a utilização de violência por trabalhadores contratados para “organizar” o embarque nos ônibus que atendem as praias recifenses nos finais de semana e de fraudes nos números das viagens que deveriam atender a população da capital, cujo deficit é estimado em cerca de 1.500 delas por dia.

Entretanto, enquanto o poder público continuar apenas atendendo às demandas empresariais ao invés de averiguar a realidade do serviço oferecido através das concessões públicas e oferecendo obras faraônicas como solução para o transporte urbano, caberá às ruas e ao povo a exigência do compromisso de quem deveria representá-lo. Para que se contenha, ao máxima, a tendência desumanizante das cidades brasileiras, em que a população perde cada vez mais tempo de sua vida submetida a condições indignas nos coletivos urbanos. O custo social disso é imensurável e o assunto deveria assumir nas agendas dos governos a importância que tem para a efetivação do (que poderíamos conceber como o básico do) direito humano à cidade.

Já a população pernambucana terá a oportunidade de conhecer melhor o seu novo governador, Paulo Câmara, nos primeiros dias de mandato do que durante toda a campanha eleitoral. Pois é evidente o paradoxo existente entre suas propostas de governo e as posições emitidas por seu secretariado frente à pressão do poder econômico das empresas de transporte.

Leia a seguir a íntegra da nota pública da FIP-PE.

Paulo Câmara, promessa é dívida! Nenhum Aumento na passagem, Passe livre-já!

A questão da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras foi um dos principais motivos que levaram às pessoas as ruas a partir de junho de 2013. O transporte público brasileiro, uma mistura de altas tarifas com péssima qualidade no serviço é um fator de grande descontentamento popular. Foi o aumento da tarifa no transporte público em São Paulo que deu o estopim das manifestações populares que tomaram conta do país desde então.

Em Pernambuco o então governador Eduardo Campos, temendo que as manifestações atrapalhassem suas ambições pessoas na corrida ao palácio do planalto, tratou logo de baixar em 10 centavos a tarifa na região metropolitana do Recife. Tal medida veio acompanhada de uma campanha de repressão que foi destaque em todo o país contra qualquer tipo de manifestação que pudesse macular a imagem do Estado que o ex-governador apresentava em sua propaganda. Escolas foram fechadas, estudantes presos, perseguidos, e até sequestrados. Intimações e intimidações chegavam a casa de todos que eram identificados nos atos. O movimento estudantil foi impedido de passar nas salas de aula dos colégios do estado, em seguida os próprios colégios tiveram as aulas canceladas nos dias de ato para impedir que os estudantes participassem dos protestos. No entanto o aumento das passagens foi barrado em 2013. Em 2014, ano de que estava agendada uma copa do mundo no primeiro semestre e uma eleição no segundo, a permanência dos atos e de uma série de mobilizações no Recife (com ocupações, movimentos por moradia, contra a Copa, de ambulantes, de rodoviários, o Ocupe Estelita etc) barraram o aumento da tarifa mais uma vez em 2014. Em janeiro de 2015 os Pernambucanos comemoram 3 anos sem aumento da passagem na região metropolitana do recife! A luta valeu a pena! A vitória é de todos os que foram as ruas!

Durante a campanha eleitoral o então candidato ao governo do estado, Paulo Câmara, prometeu a população uma agenda para mobilidade na região metropolitana do Recife. Entre as ações de maior impacto a população, Paulo prometeu:

  • O não reajustar a passagem;
  • A extinção das tarifas B e D;
  • Adoção do bilhete único no valor de R$ 2,15;
  • Uso do bilhete integrado, durante o período de 3h, onde o passageiro poderia com uma única passagem pegar qualquer ônibus sem a necessidade de ir a uma integração e;
  • PASSE-LIVRE para os estudantes do estado!!

Passadas as eleições, momento em que os candidatos arrecadam dinheiro com grandes empresários, bancos e empreiteiras, para dizer que vão governar a cidade pra o povo, Paulo parece esquecer as promessas que fez na campanha e momentos depois de ser empossado seu secretário das cidades, André de Paula, anuncia como primeira medida do governo o aumento da passagem de ônibus.

Nós da FIP-PE não temos qualquer ilusão com esse processo eleitoral farsante, nem de que qualquer conquista efetiva venha das promessas que se fazem nesses momentos. Em toda a história de nosso país foi nas ruas, não nas urnas, que povo conquistou e ampliou seus direitos. Exigimos, no entanto, que o governador eleito cumpra os compromissos que assumiu com a população durante a campanha. Permaneceremos nas ruas, lutando contra o novo aumento das passagens e pelo passe-livre estudantil, passo que consideramos importante na luta pela anulação completa da tarifa e fim de todas as catracas. Só assim poderemos garantir minimamente o acesso da população a cidade!

Veja o vídeo das promessas de campanha de Paulo Câmara pra o transporte  https://www.youtube.com/watch?v=mksyjRjuTeM&feature=youtu.be

Por um mundo sem catracas! Passe-Livre Já!

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