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Seminários debatem democratização da comunicação e o discurso do golpe na UFPE

Seminário UFPE

             Por Sofia Lucchesi*

Ao nos sensibilizarmos com a recente situação conturbada da política no Brasil, o debate a respeito da necessidade de uma comunicação democrática se faz ainda mais pertinente. Na última quinta-feira, dia 30 de junho, alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) promoveram dois seminários que fomentaram discussões importantes acerca dessa temática tão urgente.

As mesas “Diálogos sobre Comunicação Pública e Privada” e “Impeachment ou Golpe?” reuniram comunicadores, professores e estudantes sobre as perspectivas a respeito do oligopólio da indústria das comunicações e o discurso da mídia durante a cobertura do processo de impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff (PT).

O seminário de abertura reuniu um time de debatedores integrado por Juliano Domingues (Unicap), Alfredo Vizeu (UFPE) e Emerson Pereira (UFPE), o promotor do Ministério Público de Pernambuco Maxwell Vignoli, o radialista Patrick Torquato e as jornalistas Gorete Linhares, da TV Universitária, e Guida Gomes, da TV Pernambuco.

A partir do princípio previsto no capítulo V da Constituição brasileira de que os meios de comunicação deveriam favorecer a apresentação de conteúdos educativos, que promovam a cidadania, a mesa evidenciou e debateu a constante afronta aos direitos humanos nos conteúdos veiculados na mídia privada e a necessidade de elaboração de leis que regulem essas produções – a exemplo do projeto de lei de iniciativa popular da Lei da Mídia Democrática.

Também foram explicitadas as condições atuais das duas emissoras de televisão públicas do estado, a Tv Pernambuco e a Tv Universitária, que passam por desafios como a falta de recursos financeiros e estruturais. Patrick Torquato falou sobre a situação da rádio Frei Caneca – a primeira rádio pública da capital pernambucana, prometida pela prefeitura do Recife há mais de 50 anos, que entrou no ar com caráter experimental (apenas com programação musical) pela primeira vez nesta sexta-feira, dia 1 de julho.

No segundo momento do dia, a mesa, “Impeachment ou Golpe?” discutiu a análise do discurso midiático durante o – ainda em curso – processo de tentativa de impeachment de Dilma Rousseff (PT). A professora da UFPE Paula Reis estabeleceu quatro etapas do discurso criado pela mídia hegemônica sobre o processo: a construção do discurso anti-corrupção, o chamamento da população para às ruas, a destruição da imagem imagem do Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma e, por último, o intuito de gerar confiança no governo provisório do gestor interino Michel Temer (PMDB).

Junto a Paula, também expuseram seus pontos de vista sobre o tema os jornalistas Débora Britto e Henrique Lima, além de Flor Ribeiro, presidenta da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP – Cândido Pinto).

Para Debora Britto e Flor Ribeiro, a misoginia na cobertura do processo de golpe ou impeachment foi um dos fatores  decisivos para a desestabilização do governo e da figura de Dilma. O machismo na postura alguns veículos de comunicação – a exemplo da capa e a matéria da revista Isto É, publicadas em abril deste ano, que tenta construir a imagem de uma Dilma como uma mulher descontrolada e sem capacidade ou controle necessário para o cargo máximo de presidente da república – também comprovam que os veículos de comunicação não estão isentos de uma cultura de violência contra a mulher.

Outra questão levantada em ambos os seminários é a urgência de que um debate tão amplo como o da democratização da comunicação alcance outros lugares e outras pessoas. Ainda é comum que o debate fique restrito ao ambiente acadêmico ou a certo grupo de pessoas que já estão apropriadas da discussão. É importante disseminar a ideia de que a comunicação deve ser entendida como um direito humano a ser garantido para todos os cidadãos e cidadãs, desconstruindo discursos tendenciosos e antiéticos propagados pela mídia hegemônica e democratizando as comunicações no país.

* Sofia Lucchesi é graduanda em jornalismo, integrante e estagiária do Centro de Cultura Luiz Freire.