Opinião

Pronunciamento de Dilma em rede nacional, uma sugestão

por Renato Pereira Feitosa

dilma-rede-nacional-21-06-2013

O que vocês acham?

A presidenta Dilma entra em rede nacional. Saúda a população e faz uma introdução. Em linguagem acessível à população e sinteticamente expositiva – não esquecendo das legendas para deficientes auditivos e da interpretação em libras – mostra todas ilegalidades cometidas por Moro com as escutas, expõe documentos oficiais que comprovam o esforço do juiz em fabricar crimes através da prática de crimes.

Fala o que diz a Constituição sobre a divisão de poderes, as competências das instâncias judiciárias e destaca a importância do porquê isso ser assim.

Sempre prezando pela linguagem acessível, versa sobre o que são as escutas, como podem ser feitas, para que fim – que é investigar indiciados em crimes, procurando provas sobre suas práticas. Explica novamente como essas coisas podem ser feitas e por quem. A mesma coisa sobre torná-las públicas.

Feito isso, diz que o juiz liberou as escutas só para a mídia publicar do jeito que quisesse, editando seus conteúdos e enviesando com as reportagens a interpretação de conversas que não apresentam a caracterização de qualquer crime. Tentando a todo custo imprimir sobre ela a figura de alguém que acoberta um fora-da-lei.

Seguido isso, reproduz, sem cortes e com legendas, uma das gravações completas, aquela em que Lula diz que não iria pro Ministério para escapar da Lava Jato. Anuncia que está disponibilizando no site da presidência todo conteúdo do que tem sido apresentado pela mídia e estará entrando com pedido de resposta a toda reportagem que, constatadamente, esteja manipulando as informações sobre as escutas.

Reforça o que diz a lei do direito de resposta sobre isso e os prazos, e provoca PGR e STF a respeito da responsabilidade no uso de concessões públicas para veiculação de atos que violam direitos constitucionais da sua pessoa, do seu cargo e da fé pública depositada na sua figura e na de seu partido através de eleições populares e democráticas. (Uma palhinha de como o Congresso sabotou a reforma política proposta em 2013 seria um must.)

Fala que é sobre isso que setores da oposição, em estranha sintonia com a justiça federal do paraná e do estado de São Paulo – expõe as ligações políticas que souber – e a cobertura de parte da mídia querem passar por cima quando expõem conversas políticas triviais que envolvem a nomeação de um ministro de Estado, sendo o uso de palavrões os indícios que apontam para a prática de supostos crimes pelos quais nem é judicialmente acusado. Faz piada sobre como boa parte da população brasileira se tornaria criminosa se tal fato virasse norma jurídica, afinal, Lula não inventou o palavrão, mas o trouxe da nossa cultura assim como outras figuras políticas bocas sujas que não têm suas conversas com aliados políticos expostas nos jornais.

Diz coisa bonita sobre a liberdade de expressão e manifestação de opinião. Fala como a democracia ampara os protestos de domingo, mas que suas exigências pelo impeachment não alteram os fatos de que não há ilegalidade constatada ou julgada contra ela. Mostra que a oposição está se valendo disso para mudar o resultado das escolhas do povo. Explica como isso é um golpe, que insatisfação com um governo não significa tirá-lo, mas tentar transformá-lo em algo que atenda às principais necessidades da população.

Lembra como a irresponsabilidade de Moro põe a perder toda uma investigação que apontou redes de corrupção que devem continuar a ser investigadas e expostas em sua totalidade se comprovadamente criminosas. Rememora a ficha do Presidente da Câmara que abriu seu processo de impeachment e de boa parte dos componentes da Comissão Especial.

Expõe o perigo que seria este impeachment – realizado de forma tão tronxa, passando por cima das leis e da Constituição, na base do crime – para a democracia que temos tentado consolidar no país nas últimas décadas.

E clama à população para que use de seu direito de manifestação pela continuidade do desenvolvimento de uma democracia de muitxs, que supere os jogos das elites que caracterizam a política brasileira desde a formação do país.

Para que, se for da vontade da população que o PT saia do governo, isso seja feito de forma constitucional, nas próximas eleições. E que, até lá, é papel maior do Judiciário (STF) prezar pelo devido cumprimento da Carta Magna e responsabilizar seus membros por atos ilegais.

Pode até parecer uma sugestão estranha. Alguns podem chamar de autoritária a atitude de interromper a programação das emissoras comerciais para algo assim. Mas não é. E nem seria considerado em outras democracias do mundo, garanto. Afinal, é um simples uso da coisa pública (é isso que são os canais de radiodifusão) para um interesse público: garantir à maior parte da população possível o acesso a informações importantes para o país e sua democracia.

Nossa infelicidade é que o modelo da mídia brasileira não foi concebido para uma democracia plural.

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