Durante o mês de novembro é construído um calendário de lutas e pautas relacionadas ao Movimento Negro em virtude do Dia da Consciência Negra (20/11), no entanto, é fundamental para a construção de uma sociedade democrática que esse calendário se amplie para o ano todo, uma vez que é inadmissível que 56,2% da população do país 1 (segundo dados da PNAD Contínua do IBGE) seja invisibilizada cotidianamente – e quando não é, comumente está associada à violência e miséria.

Antes de tudo, é importante deixar aqui negritado que esse debate não deve ser somente responsabilidade do Movimento Negro, aliás, são essas frentes de luta que pautam todos os dias questões relacionadas à negritude e ao racismo. O Poder Público e segmentos da sociedade civil precisam seguir o exemplo da militância e transformar o pontual em cotidiano.

A mídia tem grande papel nesse debate, pois ela é uma das grandes responsáveis por perpetuar estereótipos e invisibilizar a História afro-brasileira, seja por meio de coberturas jornalísticas, filmes ou novelas. A violência contra os corpos negros não pode ser naturalizada, espetacularizada e banalizada, uma vez que isso colabora diretamente para uma leitura que normatiza o derramamento do sangue negro em troca de audiência.

Se, por um lado, o racismo ceifa tantas vidas negras, com mais do que o dobro de chances de serem assassinadas no país, por outro, a cobertura midiática desvirtua a pauta ao não associar esse sistema de violências ao racismo. Não problematizar, por exemplo, truculentas ações policiais contra à juventude negra e dar nome aos bois, como diz o ditado popular, é camuflar essas ações sistêmicas e propositais a tal ponto que, quando analisadas mais de 12 mil notícias sobre segurança pública, as menções aos termos racismo e injúria racial não chegam a 0,5%.

As razões para essas problemáticas são diversas, desde a construção de um modelo econômico baseado na escravização, até as práticas de apagamento histórico e cultural cometidas pela branquitude, passando ainda pela falta de políticas públicas eficazes para encurtar os abismos sociais. 

Do ponto de vista comunicacional, é nítido que faltam vozes e olhares que endossam a pluralidade das relações étnico-raciais. De acordo com dados do Perfil Racial da Imprensa Brasileira, enquanto 77,1% da categoria se autodeclara branca, apenas 20% dos jornalistas presentes nas redações do país são negros. Ou seja, num país onde a elite branca é dona dos meios de produção e do capital, e possui controle dos meios de comunicação de massa, olhar com desconfiança para o que nos é contado acaba virando regra para não cairmos nas armadilhas do racismo estrutural. 

É a partir dessa desconfiança, que devemos investigar, procurar outros caminhos, outras fontes, ouvir outros especialistas, negros e negras, e oportunizar os novos saberes e os saberes ancestrais. Por isso, se faz tão importante atentar-se sobre a construção da cobertura midiática sobre datas como o Dia da Consciência Negra. Dito isto, vamos analisar como foram as capas dos principais jornais impressos do estado de Pernambuco no dia 20 de novembro.

“É através da primeira página que jornais e revistas chamam a atenção para o seu conteúdo” (DE POMPÉIA, Rosário; MORAES FILHO, Ivan, 2014, p. 32) 2.

ANÁLISE DAS CAPAS DOS JORNAIS IMPRESSOS LOCAIS

A capa do Diário de Pernambuco, numa edição dupla do final de semana (20 e 21 de novembro), conta com sete manchetes, sendo a última delas, no canto inferior direito da página, sobre o Dia da Consciência Negra com a chamada “Um país que insiste em negar o seu racismo”, e a linha fina 3 trazendo a visão de professores sobre o abandono do governo em relação às políticas públicas.

Apesar de estar presente na capa, é importante percebermos que é o último elemento da folha, sendo colocado abaixo (pela diagramação e aparentemente pela hierarquia) das outras manchetes. Enquanto duas manchetes receberam imagens na capa, nenhuma delas foi sobre o Dia da Consciência Negra. Na imagem que ocupa a maior parte da primeira página, sendo a principal manchete da edição, temos a figura de um homem branco de meia idade, em pleno 20 de novembro, o que perpassa uma sensação de que o lugar desse arquétipo é e continuará a ser de destaque, independente do contexto. A referida manchete traz uma entrevista sobre a “tecnologia de smartphones”, linkando com o Porto Digital e categorizando-o como um dos maiores centros de inovação do país; o que cria um abismo com o que é colocado na linha fina sobre a Consciência Negra: falta de políticas públicas para a população preta.

A outra imagem da capa é de uma galeria de arte, que apesar de poder ser uma oportunidade para destacar a cultura afro-brasileira, na verdade é um espaço com as obras de um falecido homem branco, pertencente a uma das famílias mais ricas do estado de Pernambuco.

A capa do jornal que ruma aos 200 anos, como é destacado, aparenta não ter caminhado nesses quase dois séculos, mas permanecido com ideias e ações que podem significar, no mínimo, falta de interesse.

A edição do final de semana da Folha de Pernambuco (20 e 21 de novembro) traz uma capa quase exclusivamente dedicada à Black Friday, com uma manchete indicando caminhos para não ser lesado durante a promoção.

A maior parte da página é preenchida por uma ilustração onde uma caixa com o nome BLACK FRIDAY é uma armadilha, pronta para capturar alguém. Na parte inferior, numa barra singela, está o espaço destinado para o Dia da Consciência Negra, com uma linha fina que indica duas editorias que irão tratar do tema, a de Saúde e a de Esportes.

Mesmo que na capa indique que o tema será trabalhado em cinco páginas, no que se refere à análise das capas, a Folha de Pernambuco relega a data de luta a uma posição inferior à data promocional do comércio. Disso, nós podemos tirar duas interpretações: a armadilha de captura, o que pode remeter a momentos difíceis da História da população negra brasileira, que foi escravizada e era tida justamente como mercadoria; e associar o black (preto em português) ao perigoso. 

Dos três jornais analisados, o Jornal do Commercio apresenta o maior destaque para o Dia da Consciência Negra na capa do dia 20 de novembro, com uma foto centralizada, logo seguida pela chamada “Consciência pelo passado e futuro dos povos pretos”. A fotografia é de uma das integrantes do Balé Majê Molê, da comunidade de Peixinhos, em Olinda. O conteúdo da matéria conta a História do Balé Majê Molê e traz imagens do grupo de dança. 

POR QUE DEVEMOS SER CRÍTICOS?

Ler a mídia de maneira crítica é importante por “contribuir para que o jornalismo (e a comunicação como um todo) possa ser cada vez mais diverso e transparente” (DE POMPÉIA, Rosário; MORAES FILHO, Ivan, 2014, p. 62) 4. Não é a busca pela imparcialidade, que de fato não existe, mas sim pela honestidade e pluralidade, compreendendo a Comunicação como um Direito Humano 5, como um espaço de defesa da dignidade humana e não de reprodução de práticas e discursos de marginalização.

Um ponto que nos auxilia nessa leitura crítica é estarmos ancorados no conceito da interseccionalidade e do antirracismo, entendendo as diferentes matrizes de opressão que atingem as minorias sociais. Esse exercício nos ajuda a identificar como os jornais se comportam quando a pauta são as pessoas negras, a exemplo desta análise que provoca a reflexão sobre qual o lugar de destaque dado pela imprensa para uma data tão importante na discussão para uma sociedade equânime e antirracista? Por que uma manifestação carregada de representatividade e reivindicação, que acontece anualmente nas ruas do Estado, não é destaque assim como tantas outras movimentações que são puxadas pelos organizações sociais?

A ocupação dos negros na mídia (hegemônica ou independente) colabora com discursos e ações para pulverizar o racismo, ainda mais num contexto político no qual o governo federal e seus seguidores atacam a todo instante os direitos dos negros e negras – o presidente da Fundação Palmares chama o Dia da Consciência Negra de vitimização; Jair Bolsonaro associa cabelo crespo a “criatório de baratas”; omissão do governo na condução da pandemia extermina milhares de negres; entre outros exemplos.

A ocupação de historiadores na imprensa nacional é um ótimo exemplo de reação ao vácuo na mídia do país. Para além de iniciativas que contamos nos dedos, esses espaços devem ser preenchidos por essa população. É uma dívida longa que não pode ser negociada, nem adiada. A história não pode ser esquecida e a imprensa é responsável por ecoá-la a partir de um olhar ético.

ALGUNS (BONS) EXEMPLOS PARA ACOMPANHAR NOTÍCIAS DA POPULAÇÃO NEGRA

Agência Mural – https://www.agenciamural.org.br/

Alma Preta Jornalismo – https://almapreta.com/

ANF – Agência de Notícias das Favelas – https://www.anf.org.br/

Blogueiras Negras – http://blogueirasnegras.org/

CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – https://www.ceert.org.br/

Correio Nagô – https://correionago.com.br/

Nós Mulheres da Periferia – https://nosmulheresdaperiferia.com.br/

Notícia Preta – https://noticiapreta.com.br/

Ponte Jornalismo – https://ponte.org/

Portal Geledés – https://www.geledes.org.br/

Revista Afirmativa – https://revistaafirmativa.com.br/

Site Negrê – https://negre.com.br/

 

1 O IBGE calcula a população negra como a soma de pretos (9,4%) e pardos (46,8%).

2 DE POMPÉIA, Rosário, MORAES FILHO, Ivan. Manual prático (muito prático mesmo) de leitura crítica de mídia. Olinda: Centro de Cultura Luiz Freire, 2014.

3 Linha fina: vem logo após a manchete para completá-la e explicá-la, servindo também para introduzir o assunto junto a quem lê.

4 DE POMPÉIA, Rosário, MORAES FILHO, Ivan. Manual prático (muito prático mesmo) de leitura crítica de mídia. Olinda: Centro de Cultura Luiz Freire, 2014.

5 DE POMPÉIA, Rosário, MORAES FILHO, Ivan. Manual prático (muito prático mesmo) do direito humano à comunicação. Olinda: Centro de Cultura Luiz Freire.

 ***

Escrito por Marcelo Dantas, estudante de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e estagiário de comunicação do CCLF.

Editado por Rebecka Santos, jornalista e coordenadora do Programa Comunicação e Incidência e Direito à Comunicação do CCLF.